sexta-feira, 4 de maio de 2012

Movimento. Instantes de arte, beleza e liberdade vividos em um presídio


Yoga Journal
Revista Viver Bem
Viver Zen // por Monja Coen

Fui convidada a assistir a uma apresentação musical no Presidio Feminino da Capital, em São Paulo, no final de 2010.
O espetáculo foi na capela, onde são todas as apresentações no presídio.
No que seria o altar, o palco.

Grandes cantoras, bailarinas, atrizes, mulheres.
Mulheres fortes.
Mulheres sofridas.
Mulheres lindas.
Mulheres esquecidas e ali relembradas da sua sensibilidade, beleza, nobreza.
A vida vive, em cada uma, uma vida.
Loiras, morenas, negras, mestiças, árabes, judias, europeias, asiáticas, indígenas.
Centelhas sagradas.
Sorrindo assustadas. Respiram profundo e devolvem ao mundo a transgressão.
Milagre é seu nome.

FILHAS DE TODA A TERRA.
Da Hungria, África do Sul, Angola, Portugal, Espanha, Alemanha, América do Norte, Central e do Sul e dos nossos brasis tão variados.
Lindas cantaram e juntos todos e todas cantamos.
Choramos.
Emocionante.
A beleza.
Menos de seis meses e lá estava um espetáculo digno de grandes teatros.
Mulheres aprisionadas por erros, por faltas.
Mulheres transgressoras.
Quem de nós já não transgrediu?
Não eram elas e nós. Éramos todas nós que estávamos lá.
Estávamos lá.
Por seguir o coração.
O coração que engana e do qual é impossivel se separar – cantou em inglês.
De onde viria essa minha tia? Irmã, amiga? Que transgressão seu coração a obrigou a transgredir?
Fico pensando em nossas pequenas transgressões diarias, escondidas, reveladas.
Luz, beleza, dança, leveza, sensualidade, harmonia.
No final, as guardiãs buscando que voltassem aos seus pavilhoes – platéia e palco – aos seus pavilhões.
E voltamos todos e todas aos nossos pavilhões, aos nossos grilhões. Pavilhões de nossas familias, casas, trabalhos, status,  e sabe-se lá o que mais.

O que é liberdade?
Livre é o pássaro? Mas ele também está sujeito a seu tamanho, seu espaço.
Não pode ir mais alto que seu limite, nem mais baixo. Vida por um triz. Sempre por um triz.
Liberdade de escolha.
Escolher o quê quando não há o que escolher?
Você não é presidiária. Você está presa. Estamos assim. Erramos, corrigimos o erro. Caminhamos.
Mulheres femininas, mulheres masculinas.
Seres humanos em profunda emoção.
Foi lindo, solene.
Amanhã outro dia, como este dia, como este dia.
Olhando as unhas, atravessando o palco.
Esses meses de treinamento, de ensaio, foram sagrados.
Passaram tão rápido.
As apresentações mostrando que a vida é mais forte que a dor.
Que não há prisões para corações libertos.
Porque é possivel voar.
Nada obstrui ou impede o voo celeste da mente liberta de todas as manipulações.
Mães e filhas. Irmãs, companheiras.
Momentos.
Daqui a alguns anos apenas memórias.
Memórias distantes de alguns anos apenas.
Teria sido eu?
Como era minha cela?
Será que me lembro do odor do sabão?
Só mais sete meses e saio daqui, alguém me falou na hora de ir.
As fotos rolando no fundo do palco.
Crianças fofinhas, crianças aguardando.
As mães aprisionadas por emoções, por erros nas ações, por instigações e investigações.
Então agradeço ao amor que me fizeram sentir.
Amor pela vida, pela música, pela arte, pelo instante de luz.
Cerejeiras em flor.
Breves instantes de beleza, arte e amor.
Agradeço e as levo comigo onde eu for.
Mãos em prece.

Monja Coen é missionária oficial da tradição Zen budista Soto Shu e praticante de Yoga.
texto publicado em fevereiro de 2011

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